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quinta-feira, 8 de maio de 2014

Jair Rodrigues o Pai do Rap no Brasil Segue em Disparada pra Abraçar Elis Regina


O abraço amigo dos parceiros musicais Elis Regina e Jair Rodrigues
"Prepare o seu coração, pras coisas, que eu vou contar" :
O cantor Jair Rodrigues, que tanto nos emocionou pela forma vibrante de cantar, morreu nesta manhã de quinta-feira (8) aos 75 anos, em São Paulo. Jair, conquistou meu coração e o de muitos brasileiros ao  interpretar "Disparada", música de Geraldo Vandré, tornando-a vencedora no Festival de Música da TV Record, em 1966,  período da Ditadura Militar. "Deixa que digam, que pensem, que falem"...já preconizava o Rap, segundo o criativo e inteligente Jair Rodrigues.O músico seguiu no balanço, mas nos deixou muito carinho musical, que seguirá conosco e tomara, seja regado pela novas gerações.


Disparada
Geraldo Vandre

Prepare o seu coração
Pras coisas
Que eu vou contar
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
E posso não lhe agradar

Aprendi a dizer não
Ver a morte sem chorar
E a morte, o destino, tudo
A morte e o destino, tudo
Estava fora do lugar
Eu vivo pra consertar

Na boiada já fui boi
Mas um dia me montei
Não por um motivo meu
Ou de quem comigo houvesse
Que qualquer querer tivesse
Porém por necessidade
Do dono de uma boiada
Cujo vaqueiro morreu

Boiadeiro muito tempo
Laço firme e braço forte
Muito gado, muita gente
Pela vida segurei
Seguia como num sonho
E boiadeiro era um rei

Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E nos sonhos
Que fui sonhando
As visões se clareando
As visões se clareando
Até que um dia acordei

Então não pude seguir
Valente em lugar tenente
E dono de gado e gente
Porque gado a gente marca
Tange, ferra, engorda e mata
Mas com gente é diferente

Se você não concordar
Não posso me desculpar
Não canto pra enganar
Vou pegar minha viola
Vou deixar você de lado
Vou cantar noutro lugar

Na boiada já fui boi
Boiadeiro já fui rei
Não por mim nem por ninguém
Que junto comigo houvesse
Que quisesse ou que pudesse
Por qualquer coisa de seu
Por qualquer coisa de seu
Querer ir mais longe
Do que eu

Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E já que um dia montei
Agora sou cavaleiro
Laço firme e braço forte
Num reino que não tem rei


"Este é um vídeo raro, pois as imagens do Show feito por Elis e Jair em 1965 no Teatro Paramout foram perdidas nos incêndios da antiga TV Record. Porém durante a viagem que os dois (No auge do sucesso!) fizeram a Portugal no final daquele ano, alguns trechos foram exibidos pelas televisões lusitanas permitindo que este expressivo e importante momento da musica brasileira fosse preservado. 
Este vídeo mostra um curto trecho do famoso "Pout Pourri do Morro" interpretado por Elis Regina e Jair Rodrigues com o acompanhamento luxuoso da "maravilhosa cozinha" do Jongo Trio".


Jair Rodrigues dividindo o palco com os filhos também cantores, Luciana Mello e Jairzinho.

A cantora e compositora Luciana Mello, filha de Jair Rodrigues, escreveu nas redes sociais:"Quero agradecer, de coração, o imenso carinho que estamos recebendo! Em breve falaremos com todos. Só pedimos que respeitem nossa privacidade nesse momento tão difícil e sofrido...Muito obrigada!!."



Brincadeira Musical em Família... para alegria dos filhos e de todos nós.



Deixa Isso Pra Lá

Jair Rodrigues

Deixa que digam
Que pensem
Que falem

Deixa isso pra lá
Vem pra cá
O que que tem ?
Eu não estou fazendo nada
Você também
Faz mal bater um papo
Assim gostoso com alguem ?

Vai,vai,por mim
Balanço de amor,é assim
Mãozinha com mãozinha pra lá
Beijinhos e beijinhos pra cá

Vem balançar
Amor é balanceio meu bem
Só vai no meu balanço quem tem
Carinho pra dar

O céu é mais que azul, hoje os que o habitam serão presenteados com um espetáculo estelar

terça-feira, 1 de abril de 2014

DITADURA

a poderosa arma dos generais e a arte da resistência

Por Lila Dourado
O Brasil viveu um período de ditadura militar entre 1964 e 1984, uma fase bastante triste da nossa história. Com o Golpe de 64, os presidentes da República passavam a serem indicados por uma junta de comandantes das Forças Armadas.
As Forças Armadas, cujo papel deveria ser o de defesa do país, da integridade territorial e da garantia dos poderes constitucionais, institucionalizou por 21 anos  a corrupção e fez da tortura uma prática política, tornando-se juizes  da Pátria.
Durante a Ditadura, os generais aliados dos banqueiros, fazendeiros, políticos vindos da antiga União Democrática Nacional (UDN) e do Partido Social Democrático(PSD) com interesses comuns, formavam uma oligarquia avessa as críticas ou à oposição. Os militares prendiam, batiam e matavam professores, políticos, estudantes, jornalistas e artistas, procurando envilecer o caráter dos movimentos sociais organizados. Com o poder que tinham, os militares poderiam ter transformado o Brasil numa grande nação, com reformas substanciais. Mas, fizeram o inverso, asseguravam o crescimento econômico da burguesia, ampliando o abismo entre pobres e ricos do país.
O regime militar violentou os direitos humanos e interrompeu o diálogo democrático, entre o governo e a sociedade. Nesse período, o teatro tornou-se necessariamente político, mas contundente e de protesto. Algumas peças teatrais eram feitas pelos Centros Populares de Cultura(CPC) da UNE, abordando a Reforma Agrária, a história do campesinato e do operariado. Foi o momento do florescimento da dramaturgia brasileira e da arte de representar. Os textos e os atores denunciavam a ditadura, o entreguismo e a covardia governamental ao se integrar inteiramente ao poder do governo dos EUA e aos outros países, além da subserviência ao poder cívico militar.
O dramaturgo Augusto Boal,  criador do Teatro do Oprimido, auto-exilou-se durante boa parte do regime militar. Em 1968, quando a liberdade de expressão foi amordaçada com AI-5, Boal desenvolveu com outros atores, o teatro-jornal,  procurando dar ao espectador não o produto acabado, mas os meios de produção. Ensinava a fazer teatro a partir de notícias de jornal.
Às vezes, a censura não proibia o espetáculo, mas cortava 80% do texto a ser apresentado, o que levava a revolta de muitos autores e atores, como: Ruth Escobar, Cacilda Becker, Fernanda Montenegro, Augusto Boal, Zé Celso Martinez, Fernando Gabeira, Ferreira Gullar, , prin
 O clima de protesto contaminava muitos artistas, muitos deles reuniram-se no Show Opinião, peça musical de protesto escrita por Armando Costa, Oduvaldo Viana Filho e Paulo Pontes. Com músicas de Zé Keti e João do Vale formavam um imenso painel cultural da época. Na voz de Nara Leão os trechos: "Carcará/ Pega, mata e come/ Carcará/ Num vai morrer de fome/ Carcará/ Mais coragem do que home". Nara, utilizou sua voz como instrumento de denúncia.Os poemas e depoimentos lidos por ela, mostravam o desejo de ensinar um novo caminho, o da liberdade. Sua voz tornava-se firme ao dizer: " Podem me prender,/ podem me bater/ podem até deixar-me sem comer/ Que eu não mudo de opinião", ela acreditava seriamente que- " O Brasil é o que a gente faz dele", principalmente quando observava a platéia cantando junto.
Cacilda Becker tornou-se porta-voz de toda a classe teatral, quando declarou desobediência civil: " De hoje em diante os artistas brasileiros não obedecem à censura; nós vamos fazer os nossos espetáculos, não vamos mandar mais para a censura. Desconhecemos a censura". Com estas palavras, Becker destacou-se na luta contra a censura imposta pelo Regime Militar.
A onda de protesto percorria o Brasil de Norte a Sul e o confronto com a política resultava em mortes  e feridos. Os grupos de esquerda, unidos e presentes nas manifestações teatrais, nos atos estudantis, atentados contra representações diplomáticas estrangeiras e bancos, divergiam quanto à linha de ação e combate à ditadura.
O poeta Ferreira Gullar, presidente do CPC da UNE em 1964 e membro do  partido comunista brasileiro, preso m 1968 quando Costa e Silva decretou o AI-5, posicionou-se contra a luta armada:" A minha luta que pregava, era luta pacífica para ganhar a opinião pública e obrigar a ditadura a abrir e devolver ao país as  liberdades democráticas, vencemos, porque a ditadura foi derrotada, não pela Luta Armada. Ela foi derrotada pelo voto." Gullar, buscava através do CPC conscientizar as massa populares da condição de opressão e exploração.
O Cinema Novo, manifestação artística da maior importância, consolidava-se com Nelson Pereira dos Santos. Glauber Rochacom o Slogan " Uma idéia na cabeça e uma câmera na mão" rebelava-se contra a estética e modelo econômico-social dominante e exigia reformas.
Diante do impasse entre os movimentos populares (pró-governo) e conservadores(contra o governo),ganhava peso a idéia de que o impasse só seria resolvido com a deposição dos militares do poder.
A partir dos Anos 70,os  movimentos populares ganharam força, artistas, jornalistas, advogados, professores, políticos e estudantes, mobilizaram a sociedade civil e respaldados pela igreja católica,  a partir de 1980 consolidam-se na luta pela Anistia e Liberdade Democrática no país.


Em 1968, Geraldo Vandré tornava-se o ícone do movimento artístico brasileiro, ao compor a música "Prá Não Dizer Que Não Falei de Flores". A música tornou-se um hino para estudantes e artistas. Todos a cantavam em encontros e passeatas. Os militares consideravam Vandré, subversivo e perigoso. O artista ao ser perseguido, preso e torturado pelos militares, levou Chico Buarque de Holanda a usar o pseudônimo "Julinho da Adelaide", para escapar da perseguição da censura. Apesar de duro e cruel, o regime não conseguiu evitar que a criatividade florescesse, nas mentes dos nossos brilhantes artistas. Muitos sentiam-se na obrigação de conscientizar a população, sobre o papel de cada um na sociedade, através das músicas de protestos. Tornaram-se porta-vozes do povo, ao denunciar a ação das Forças Armadas no Brasil.

Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores




Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores 
Geraldo Vandré


Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Caminhando e cantando
E seguindo a canção…

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer…

Pelos campos há fome
Em grandes plantações
Pelas ruas marchando
Indecisos cordões
Ainda fazem da flor
Seu mais forte refrão
E acreditam nas flores
Vencendo o canhão…

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer…

Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam
Uma antiga lição:
De morrer pela pátria
E viver sem razão…

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer…

Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Somos todos soldados
Armados ou não
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não…

Os amores na mente
As flores no chão
A certeza na frente
A história na mão
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Aprendendo e ensinando
Uma nova lição…

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer…




Em agosto de 1979, Figueiredo assina a Lei da Anistia, beneficiando mais de 4 mil pessoas penalizadas durante os difíceis anos da ditadura. Graças a Lei da Anistia, os presos políticos foram soltos e os exilados puderam retornar ao país. Entre eles: Leonel Brizola, Jânio Quadros, Fernando Gabeira, José Serra, Celso Furtado, Darci Ribeiro,Miguel Arraes, José Dirceu, Luis Carlos Prestes, João Amazonas e muitos artistas e intelectuais.
O cenário brasileiro começou a mudar com a Nova República, o povo depositava as esperanças na nova fase da história, ao som da música "O Bêbado e o Equilibrista", que tornou-se o grande hino da anistia na voz de Elis Regina. Elis, a maior intérprete da MPB morreu aos 36 anos em 1982, sem experimentar esta vista panorâmica da Democracia, pintada pela luta do povo brasileiro e na qual era perceptível a mão da grande bossanovista que resistiu bravamente ao regime. Elis foi bem mais que um "Falso Brilhante".

O Bêbado e o Equilibrista
João Bosco e Aldir Blanc,1979

Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos

A lua tal qual a dona do bordel
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel

E nuvens lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas
Que sufoco!
Louco!
O bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil
Pra noite do Brasil
Meu Brasil!

Que sonha com a volta do irmão do Henfil
Com tanta gente que partiu
Num rabo de foguete
Chora
A nossa Pátria mãe gentil
Choram Marias e Clarisses
No solo do Brasil

Mas sei que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente
A esperança
Dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha
Pode se machucar

Azar!
A esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar